Era um silêncio de morte, não sei porque mas era o que parecia, e som de vozes rezando ao fundo, atrás de mim, e ao meu redor… alguns sussurros que chegavam ao meu ouvido como zumbidos e deixavam minha nuca arrepiada, pois eu quase sentia a respiração traçando o ar e batendo na minha pele, aqueles murmúrios eram abelhas zunindo pelo ar. Lá estava eu no Mosteiro de São Bento novamente, confesso que tenho aversão a igrejas, mas não tenho nada contra um palácio que é ladeado de histórias. Alguém já foi lá? Andamos por mármores espanhóis com abobadas cheias de anjos e santos, símbolos, rosas, palavras em latim, estátuas e vidraças lindíssimas. Quem seguir em frente e parar de frente ao altar, pode encontrar a lápide do Frei Fernão Dias Pais, o maior financiador o Mosteiro.
Enquanto estava lá, estava sozinha, tirei algumas fotos mas depois, não consegui mais, o mundo parecia tão calado lá fora, havia alguma barreira na porta que o lá fora era até esquecido e parecia que lá fora não existia a não ser na própria razão. Mas haviam os monges. Estes passavam de um lado para o outro, abrindo e fechando portas com delicadeza, porém elas não preservaram essa qualidade nas juntas que rangiam e batiam sem piedade cortando a concentração de qualquer um. Portas enormes e ornamentadas, elas se abriram demais para muitos e por muito tempo, muita história já entrou e já saiu, vai se saber… Consigo escutar as preces, mas e os sussurros? O que eles querem dizer? O que gosto nas igrejas e de ver tantas pessoas diferentes em paz e silenciosas, sem interromper a fé de ninguém, mas elas não se vêem , mas eu não quero falar do meu ponto de vista de religiões, o que interessa o que penso ou acho? A intrusa naquele templo era eu, a que não tem religião e não crê em santo, se fosse um crime, a culpa era totalmente minha. Mas me mata ver tantos “filhos de Deus” se unindo e não se olhando a não ser que uma peste as abata sobre todos e a salvação fique nas mãos dos vivos, certos da própria morte e com medo do julgamento final… vão, se aqueles que verão em Deus a certeza da salvação eterna, os outros não verão mais do que uma oportunidade de viver a vida enquanto ainda pode…
Os monges, eles tem rostos tão serenos, por que não consigo sentir isso com firmeza em seus corações? Por que ainda vejo homens e não idéias? Por causa do medo talvez…
Sento-me então e deixo minha cabeça pender para trás, posso ver o teto e seus desenhos, sua profundidade que aspira ao poder, ao encontro de meros mortais aos olhos de anjos de Deus ao seu alcance (se tiver boa vista, o que não é no meu caso). Não dá para não escutar o silêncio e seus estalos, como os de madeira de uma cadeira malcriada, que chia ao sentir alguém levantar, o gritinho de suas juntas que de forma alguma incomoda, tem que goste de tirar os tímpanos da rotina, pois é o ranger de uma simples cadeira, na simplicidade que deixa a mente atônita de tão calma, ou como dizem, encontram o estado de espírito que chamam de repouso perene, transe mental…
O sino toca as 18h, alguém pergunta algo aqui, outro responde acolá, e começa a ficar frio. E nessa hora, em a frente, do lado esquerdo da igreja, abrem-se as portas e em duas filas saem monges de preto, e parece não acabar mais monges. Sento-me porque acho curioso, mas alguém chama minha atenção com um psiu e pede que em respeito eu me levante. E o fiz o mais depressa, claro, mas juro, em momento algum, senti alguma comoção ao escutá-los ao canto gregoriano, de tons elevados e finos, ecoando pelos cantos e chegando até a fazer tremer o peito. Não me senti bem ali, achei muita coisa errada, queria olhar para os lados e pensei em registrar o momento, mas não podia roubar-lhes a figura de suas preces, eu não queria tomar aquele momento como registro de minha participação naquele hemisfério, basta o que eu conto, o que vi e o que senti, e ninguém podia me julgar, porque me mantive plácida e atenta o tempo todo, com as mãos juntas e caídas ao meu fronte, como se aquilo fosse um ato de demasiada beleza. Mas não era. Era bonito ver as pessoas juntas, tantas. E eu era mais uma delas, que como as outras, querem ser aceitas, escutadas e acudidas. Mas como eu disse, a intrusa naquele circulo de devoção era eu, eu não podia de forma alguma tentar mudá-los e dizer o que penso. Aprendi que com o tempo, as pessoas se aceitam com a convivência constante, o que me fortifica no fato de ter uma base humana, e que seja recíproco, temos que acima de todo, ter amor, mas depois disso tudo, o máximo de respeito exigido e desejado…
Sem mais, só assistia por mais 5 minutos e fui embora, sobre olhares abismados pois tinha gente que ficou mais de horas aguardando por esse momento. O meu momento veio e se foi, é o que estou escrevendo aqui… mas ninguém fala mais do que os olhos, adoro-os, eles não sabem mentir. Mas vê, o silêncio é somente uma frase proferida pelo simples e puro ato singelo e libertador verbo respeito…
Algumas fotos do Mosteiro, estão no meu Flickr, link ao lado..